segunda-feira, 20 de março de 2017

Shakespeare

Shakespeare terá exclamado um dia qualquer coisa como isto: oh! quem me dera ser do tamanho do universo mas caber dentro de uma casca de noz.
Deste me ser e não ser o infinitamente grande e o infinitamente pequeno ao mesmo tempo, fez-me ignorar o impossível e aceitei ir pelo meu espaço interior, e ser o vácuo que separa as galáxias umas das outras.
Agarrei-me a um idealismo utópico, e ucrónico que me levou por ares e ventos numa distopia imensa mas que cabia na ilha de Rafael Hitlodeu onde me sentei numa pedra e sustive a respiração, para que só o vento me envolvesse, mas o ar não me penetrasse. Uma luz vinda não sei de onde iluminou-me o escuro que me preenchia e onde as cores eram estruturas antigas, de outras culturas de antes da civilização. No entanto os homens já pensavam, já amavam, já faziam poesia tentando fazer rimar o ser com o não ser e opondo a razão à questão em si, e questionando a existência de Deus como Homem ou a do Homem como Deus.
Questionar era estar vivo e compreender que isso não é pensar mas estar apenas com o olhar fixo nas cores a desdobrarem-se e a ficarem em branco.

E preservei-te . . .

E preservei-te na memória, incapaz de te esquecer, porque sabia que no dia em que te esquecesse, passava a ser outro e teria que me reinventar. Tudo isso me assustaria e me voltaria a aproximar cada vez mais da memória que de ti tenho e que de mim queria que continuasses a ter.
E a memória começou a escorrer por mim abaixo e Chopin precisou de conhecer George Sand.
Depois eu próprio fui Beethoven e compus, nessa altura, o Hino à Alegria que era para se ter chamado Hino à Liberdade. Mas isso não me foi permitido e mais uma vez fui censurado! Fiquei sem liberdade e sem alegria. Apenas pude pensar.
E tu, meu amor, sentaste-te ao piano a tocar Schubert, e deixaste que na minha cabeça alguém cantasse uma das muitas lieds, penso que seiscentas, que ele compôs.
Foi quando fui pedir a Saltieri que me arranjasse um emprego estável na Capela Imperial dos meus sonhos.

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

E . . .

Há sempre carácteres de fronteira, marginais. Se adolescer é transgredir, a adultícia deverá ser feita de uma permanente curiosidade sobre o acontecer.
O que é que todos temos em comum? A necessidade ! Necessidades físicas, como a fome e a sede, o sono, o descanso, tal como em todos os seres vivos, embora os seres humanos não se satisfaçam simplesmente com uma mera sobrevivência. Aspiram sempre a mais, pois há um intelecto a satisfazer.
Para se estar verdadeiramente satisfeito, exige-se mais. No entanto o que se exige varia de cultura para cultura, de circunstância para circunstância, e até muda com os tempos, como naquela expressão latina " oh! mores !". Existe, no entanto, uma constante: de uma maneira ou de outra, as coisas que se desejam prometem sempre uma satisfação. As pessoas têm uma necessidade inata de estar contentes, satisfeitos consigo mesmos e com a vida. O que não tem que ver com tudo acontecer apenas quando tudo corre de feição.
Como dizem os hindus "é impossível encontrar uma alegria incomparável nesta vida!"
Não preconizo religiões, dogmas, doutrinas filosóficas ou outras, mas proponho que as pessoas aprendam a parar e a reflectir que o conhecimento, em si mesmo, é apenas uma maneira de ir mais fundo, mais dentro e de desfrutar desta existência, de estar o mais possível preenchido nesta vida.

O conhecimento é uma maneira de se pegar nos nossos sentidos, que geralmente estão virados para fora a maior parte do tempo vivido (Jung diz que quem olha para fora sonha, mas quem olha para dentro acorda).
Virar os nossos sentidos para dentro e podermos sentir e ter realmente a experiência de nós mesmos - não de ideias, conceitos, pensamentos ou sugestões. Somos nós que precisamos de conhecer, no mais profundo sentido da palavra. E devemos ser nós, de uma maneira ou de outra, a conhecer.
Aquilo que é óbvio: o que procuramos está dentro de nós. A alegria que procuramos está dentro de nós. A felicidade que procuramos está dentro de nós.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Mais coisas

Do mesmo modo que aquele que fere o outro, se fere a si mesmo, aquele que cura o outro também se cura a si mesmo. Este é um dos princípios do cuidar (cuidare).

Não só como a pessoa deve estar na empresa, assim também a empresa deve tratar a pessoa, tal qual não é a maneira como o graffiti existe na cidade, mais importante é como a cidade trata o graffiti.
É com o graffiti que o graffiter encontra formas de desafiar as pessoas e as convenções, de interpelar a cidade, de protestar de alguma forma contra aquilo que lhe desagrada. Usa a rua e as paredes como se fossem telas, mais do que isso, usa a rua como espelho. Ao fazer Street Art, pode e sente-se entre um ser e um estar na vida e até no ambiente de trabalho em que vive inserido, de uma outra forma mas que é a sua. E os projectos que o desafiam, desafiam a sua criatividade e a sua maneira de inovar.
Afinal grafitar é um acto de liberdade, uma forma de expressão como outra qualquer. É arte? Isso está no olhar de como cada um vê o que está grafitado. Mas o que é certo é que, por mais campanhas de repressão ou de limpeza que se façam, as cidades nunca se conseguiram livrar deste tipo de intervenções. Goste-se ou não, uma cidade não se faz só de fachadas muito bem pintadas e limpas das cores garridas com que se desenham as paredes; o mundo é muito mais rico e complexo do que isso.
As ruas não são as mesmas. A Arte Urbana reflete um tempo, uma cultura, um olhar diferente sobre as histórias de que se fazem os lugares. E se reflete o tempo, como tal é efémera, ao ser quase uma arte de guerrilha, de inconformismo, de inadaptação, de querer outras e diferentes sensações e emoções.
Provando que a arte que fala a linguagem das ruas, e dos locais de trabalho ou onde se estuda, é um meio de comunicação poderoso nos tempos que correm, a arte que fala a linguagem das empresas, as interpela e interpreta, numa nova forma de comunicação, num novo léxico que vai surgindo à medida que a roda dos tempos vai passando e vai moendo o tempo, é sempre um fazer rolar a história e a maneira como cada um vai sentindo a idade a passar.

Coisas

Tenho medo do dia em que a tecnologia se vai sobrepor à interacção humana. O mundo terá então uma geração de idiotas ( Einstein ).

A Imaginação é muito mais importante do que o conhecimento ( Einstein ).

A história da arte é quase três vezes maior que a da escrita, e a relação entre os dois tipos de expressão surge nas primeiras formas de escrita, a hieroglífica, por egípcios.

Uma das maiores funções do artista é ajudar o profano a estruturar o seu universo cultural.

Segundo Lewis Mumford (filósofo, sociólogo e historiador americano), o Código de Hamurabi (posso citar também o Breviário de Alarico) nasceu da necessidade de combater a anarquia das populações que afluíam às cidades da Mesopotâmia.

Norbert Wiener (matemático americano ), face ao desenvolvimento da automação, previa que os perigos do computador poderiam vir a ser uma extensão especializada do cérebro humano.

Há cada vez mais uma dimensão nova, que é a dimensão cultural.

O binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo, dizia Álvaro de Campos.

As ideias dos economistas e as dos filósofos políticos, tanto quando são correctas como quando são erradas, são sempre mais poderosas do que comummente se julga. Os homens práticos, que se julgam bastante imunes a qualquer influência intelectual, são normalmente escravos de algum defunto economista, dizia Keynes.

Seja curioso, interessante e interessado, não aceite reduzir o mundo ao seu pequeno mundo. Ocupe os seus tempos livres dedicando-se seja ao que for: filosofia, história, culinária, religião, arte, desporto, psicologia, xadrez e aprenda mais sobre si próprio e sobre o mundo que o rodeia, e em que vive. Procure ser cada vez mais uma pessoa interessante e que prenda a atenção dos outros, no interesse pelo que diz e como pensa.
Não se restrinja a saber tudo apenas sobre a liga dos campeões, ou sobre a nova direcção de um qualquer clube. Não digo que não saiba nada, mas não se fique por aí. Mantenha a sua cabeça a trabalhar, porque ela não tem horário de trabalho. Interesse-se por qualquer coisa, porque qualquer coisa também é já alguma coisa. (numa aula).

Envelhecer é compreender o que os mais novos apenas sabem fazer, ou se se quiser, sabem viver. É a eterna diferença que se deve estabelecer entre saber e sabedoria. Porque saber é um acumular de conhecimentos, enquanto sabedoria é saber o que fazer com aquilo que se sabe.
E nunca se deve esquecer que envelhecer é saber ter pressa devagar. (numa aula).



domingo, 14 de agosto de 2016

Eu a pensar

A realidade é como o branco, que resulta da reunião de todas as cores do arco-íris. Comigo passa-se o mesmo: noutros tons, sou o que resulta dos muitos outros tons, feitos gente,  que amo e amei, e em que me dissolvo todos os fins de tarde. Quando amanhece continuamos juntos e depois desfazemo-nos para todos juntos sermos um.
A nossa realidade é a fusão, por um lado do universo ideal-lógico-racional-matemático-abstracto e, por outro lado, do universo existencial- afectivo-histórico-imaginário. E eu nesse pluriverso, encontro-me sedento de mim, para então poder matar a sede ao outro que amo e por quem me perco nos espaços interestelares.
E no meu nível, a realidade é a unidade da lei empírico-racional e da afectividade que, sem lei nem roque , se torna a fantasia que me enche de amor por ti, meu amor. E então a nossa realidade acaba por ser a simbiose do concreto (o vivido) e do abstracto (o racional). E é então que consigo ler o vento que por mim passa e me  enrodilha em sentimentos estranhos. E esqueci-me de mim e senti-me à luz da história a deixar-me ir de braço dado com o vento, como quem vai com a própria sombra por companhia, em busca do espanto e de ti, meu amor.
Depois foi quando fui até Óbidos encontra-me com Josefa Ayala e Figueira que tinha nascido em Sevilha e que o pai trouxe para viver em Óbidos. Esta , mais tarde conhecida apenas por Josefa de Óbidos teve o condão de me enfeitiçar e fazer de mim uma das suas naturezas mortas que passei a ter na minha casa de jantar onde apesar de português aprendi a comer pratos típicos de Sevilha e viajar mais tarde no rio Sado nos típicos barcos a que se dá o nome de aiala.

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Duas definições, ou mais.

Holograma, que é uma técnica de registo de padrões de interferência de luz e que podem gerar imagens em três dimensões.

Pro Bono, que é a forma reduzida da locução latina "pro bono publico", isto é,  pelo bem público ou ainda em benefício do público.

E acrescento uma terceira definição, a de mim, e que é eu ser o esquecimento que um dia sei que vou ser. Além disso há em mim uma certa moral anarquista, em que as cicatrizes do amor me marcaram muito mais que as do ódio, porque até cheguei a pensar que não havia, na minha vida, espaço para errar ou para sofrer imprevistos.

E mais: será que Zoroastro, ou como também é conhecido, Zaratustra, tenha tido conhecimento da fenomenologia do fogo significante? Limito-me a conceder à paráfrase, essa possibilidade de eu fazer a interpretação de um texto com palavras minhas, a pequenez da traduzibilidade.
E fico a pensar que o zero é mais ou menos qualquer coisa, pois ao ser zero, necessariamente que já é ser qualquer coisa.
E esse tal fogo será que pode ser o relâmpago que ateia o fogo da contraditoriedade? E o que é o preto, e a escuridão, o silêncio que o nosso ouvido consegue ouvir? E cai a noite nos meus pensamentos, deixo de os poder ver e penso que a escuridão é isto. Só porque a sinto, existo.

E então refugio-me numa metáfrase que é um termo que não é capaz de ser sintaticamente reestruturado de uma classe gramatical para outra.
E vejo o quadro de Magritte, apenas um cachimbo preto em fundo claro, e leio a célebre frase "isto não é um cachimbo".
E confronto-me com A Traição das Imagens.

Póstumos

Alguém me dizia há tempos que há homens que já nascem póstumos, o que me fez pensar, por outro lado, como há tanta gente que já morreu há que tempos, só que não deu por isso.
Digo isto não por ter posto, aqui há uns dias, alguns pensamentos de Pablo Neruda, mas porque simplesmente olho à minha volta e só vejo mortos-vivos, num cemitério imenso, onde embora se movimentem pessoas que respiram, que têm o coração a bater e até são capazes de dizer umas baboseiras sem nexo, na verdade é como já não fizessem parte do número dos vivos, porque apenas vegetam e vêm os comboios a passar, sem sequer saberem as horas.
São pessoas que fingem, mal, que são pessoas e que lhes devemos prestar atenção. Para mim, tirando obviamente os que nasceram com alguma deficiência mental, têm de mim apenas um profundo desprezo, olho para elas como se fossem apenas uns objectos obsoletos e sem qualquer interesse.
E olho para um carreirinho de formigas em grande azáfama, que, e segundo os estudiosos na matéria, em cada dez só duas trabalham de facto, as outras oito apenas atrapalham. E sinto-me rodeado de gente que só me atrapalha e ainda se arroga o direito de ser uma coisa qualquer, que no seu sem sentido encontram um sentido, que pode ser muitas coisas, mas que também não tem importância nenhuma saber qual possa ser, porque, em boa verdade, nem se apercebem de nada.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Anjos

E dei comigo  fixado no jogo dos anjos, que batem as asas para se poderem movimentar de um lado para o outro, e que têm asas conforme as categorias que Deus lhes atribui, conforme o céu os desenha. Se são anjos ou arcanjos, se são anjos do bem ou do mal, e em que Lúcifer acumula, pois sendo anjo da luz e do bem, também o é das trevas e do mal. E a vê-los cirandar pelo céu, invejando-se uns aos outros, choro, porque mesmo que sejam só alegorias e liberdades poéticas, são coisas retidas no meu inconsciente, fechadas numa caixa de Pandora, sempre por abrir completamente, a deixar-se apenas adivinhar como uma mulher vestida com roupas transparentes, mas por quem me apaixonei perdidamente, nunca sabendo bem se por ela ou se por aquela inquietante transparência.

E submeti-me ao poder

E submeti-me ao poder impaciente do movimento dos astros. E como que ficava parado a ver os deuses a andar de um lado para o outro, atarefados com aquilo que os homens lhes pediam, enquanto o vento me enrodilhava os pensamentos, e me empurrava a pouco e pouco em direcção à confusão que há sempre quando os deuses andam a fazer alguma coisa e deixam os homens ver. É por isso que os homens não os entendem. Porque os vêm, e por isso deixam de os sonhar.
E sinto que a chuva a cair-me em cima me molha mas também me lava, me purifica e me refresca, como se fosse o aceno ou um beijo de um amigo que não se vê há muito tempo. E isso apazigua-me e faz-me sentir menos só.
E penso que o meu destino pode não ser só alguma coisa escrita pelos deuses no firmamento, numa noite insone, mas uma ordem que recebo não sei de quem e me destina um trabalho para os meus dias, como Hesíodo escreveu.
E não sinto medo, porque fico mudo a pensar, sem dizer palavra nenhuma, porque como dizia o poeta só das palavras devemos ter medo. Não, não sinto medo porque não digo nada, quieto e mudo, simplesmente a pensar.