segunda-feira, 30 de julho de 2012

Escolhi a sombra.

Escolhi a sombra que fazemos abraçados, para me esconder do mundo, e poder descansar e sentir o fresco da tarde. Porque gosto de sombras. Da nossa. Da tua.
E aninhei-me na sombra de ti e senti que me perdia para sempre, nesse mundo das sombras, de que o nosso amor é feito, e onde afinal acabei por te encontrar.
Escolhi a sombra dos meus dias, dos teus dias, no beijo que te dei esta noite.
Escolhi a sombra, para que a luz não nos pudesse ofuscar.
Carta ao meu destino
Não sei quem és, nem porque te sinto, nem porque te sou, tantas vezes, destino.
Esse, com que me vivo as paisagens do meu sonho, que tantas vezes me esmagam, mas que continuo a percorrer como um louco, que anda sem saber para onde vai, ou como uma criança que começa a dar os primeiros passos sem saber que também cai.
Mas vou, porque sei que vou contigo, destino que alguém me deu, ou se é esse outro eu de que me faço, desfaço, nesse outro sonho em que me perco, numa procura constante, obsidiante, ritual, feita de percursos que invento, de rotas que imagino para conseguir chegar a ti, contigo ao meu lado, destino.
Sou como sou, assim, atento a tudo o que me desilude, ilude, atento ao tempo que passa, que por mim passa, mas me deixa parado, esquecido, abandonado a um tempo sem tempo, e sem nada.
Um tempo que apenas parte, me reparte, sempre tal como tu, destino.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Não faço

Não faço, habitualmente, cerimónia com aquilo que penso e digo, nem tenho qualquer acrimónia para com os que a fazem comigo. É lá com eles.
Às vezes sinto-me um bom advogado do diabo em causas erradas. É como se simplesmente encontrasse prazer na forma como aprendo a aprender, a errar para poder corrigir o erro que sou eu, advogado do diabo das minhas causas perdidas mas em que acredito. E não faço cerimónia em dizê-lo.
A minha sabedoria é inútil, atravanca, estorva, esvazia em vez de encher.  A minha sabedoria é não saber.
Só me resta exilar-me, fazer como Pizarro, deitar fogo aos meus barcos interiores para ter a certeza de não poder voltar atrás.
E depois partir à procura do El Dorado, que trago dentro de mim bem guardado, para te oferecer um dia, em que me consiga esquecer que parti antes de ter chegado.

Fantasia

Fecho-me em casa a escrever, mesmo sem papel nem lápis.
Oiço música e imagino-me numa ilha. São as ondas a rebentar na praia e os pássaros a cantar no arvoredo.
E sinto-me de facto a viver uma imensa solidão, de que no fundo preciso para ser um pouco mais eu, ser a própria ilha e ser o mar imenso que a rodeia, como se fosse só uma das lágrimas que por ti choro, fantasia.

Vou

Vou pela rua, com as mãos nos bolsos, e onde também guardo algumas das minhas tristezas, alguns dos meus pensamentos mais reservados. Vou a pensar quem sou. É, sou eu mesmo, aquilo que também sou, o que fui, o que serei e o que nunca saberei ser, porque sou demasiado bem intencionado e vivo longe de todas as definições, regras, espartilhos, fundamentalismos. Só sei mentir com a verdade.
Vivo porque respiro, ando porque tenho pernas, penso porque sou capaz de sentir, amo porque não sei ser indiferente ao amor, e se deixasse de amar, era porque tinha deixado de respirar.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Já me canso

Os anos vão passando por mim, como por tudo. E o tempo vai-me desgastando, cansando, vai-me fazendo já perder a paciência de viver, esta vida que também se vai esgotando, e em que se vai também esgotando tudo.
Quanto mais vou envelhecendo, mais me arrasto pela vida como por uma imensa maçada (não a armação para pescar lampreias, não tem nada a ver).
Sinto que é o tempo a passar, como se fosse uma ventania, que me sacode, abana e cansa por me obrigar a fazer tanta força para não me deixar enrodilhar e cair.
E a lentidão do tempo a passar também me cansa, não me deixa viver tudo de uma vez, e pronto! E é quando me lembro que Bergson dizia que "o tempo é um dispositivo que impede que tudo aconteça de uma só vez". E sinto que não posso lutar mais. É mesmo assim. O tempo, a pouco e pouco, vai-me obrigando a viver enquanto sinto cada vez menos paciência.

Cabo da Roca

E lá vou eu, como faço todos os dias, aqui para perto, para o Cabo da Roca, para o meu posto de faroleiro, para bem do alto destes penhascos, fazer sinais para esse grande navio, em que nunca parto mas que também nunca vejo a partir.
E sinto que sou eu próprio o farol, na popa do navio ou na gávea do mastaréu da gata. Ou então saio de mim, subo ao meu eterno cesto da gávea, bem em cima das rochas, e de mim, perscruto o horizonte com os olhos muito abertos e grito sempre muito alto, para ninguém me ouvir: mar à vista!!! Mar à vista!!!

Devia ter nascido

Devia ter nascido de mim mesmo, e já muito velho, como num filme que por aí passou há uns tempos, e depois, também eu, como no filme, a pouco e pouco fui andando a caminho da minha da minha juventude, da minha adolescência, da minha infância.
O tempo para mim sempre foi o contrário do tempo, e por fim consegui também ser o contrário de mim, o que sempre me fascinou.

Na Escócia

Quando andei durante um ano à boleia, a certa altura dei comigo a comer o meu magro almoço, sentado num rochedo bem por cima da garganta onde começa o Loch Ness.
Tinha resolvido ir para a Escócia para saborear aquelas montanhas e aqueles lagos, de que o Loch Ness é o maior. Secretamente esperava poder ver o monstro e até tirar-lhe umas fotografias. Subitamente comecei a ouvir a música de uma gaita de foles, tão escocesa, tão celta. A vista lá de cima era soberba. E um pequeno barco à vela, com um homem a tocar a gaita, surdiu lentamente de um ponto que não me era dado poder ver, possivelmente de uma caverna nalguma pequena praia escondida num recanto dos rochedos.
A música daquela gaita de foles subiu até mim ao mesmo tempo que um arrepio me percorria o corpo todo. A beleza de tudo aquilo era de tal maneira, que só a pude sentir. As lágrimas correram-me pela cara abaixo, e a sensação foi tal que me senti a fazer amor com a natureza, e por extensão, com o mundo.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Parti

Parti em busca do teu olhar. Parto sempre. Parto todos os dias. Penso mesmo que sempre parti nessa busca desde que me sei e me sinto, nesta vida, e se calhar já noutras por onde tenho andado sem saber.
E vou por vales e pedras, subo e desço rios, sobretudo os que tenho dentro de mim, e que também partem sempre em busca, de um olhar que lhes indique uma foz, onde possam desaguar num mar qualquer que os leve até se perderem e diluirem no nada e no tudo de que são feitos.
E vou por sonhos e desejos, numa maneira muito minha de me esquecer de mim para só te ter a ti como horizonte, de me esquecer que parti em busca do teu olhar, para o encontrar em tudo que vejo, em tudo o que sinto, em tudo o que sonho.
Depois quando de uma vez o Sol me bateu bem de frente, e, encandeado por aquela luz intensa, e deixei de ver, tudo, só então vi, vi como nunca, o teu lhar.