Tenho muitas vezes a tentação de me sentir na idade da reforma. Não de alguma ocupação ou de um trabalho de que receba uma remuneração qualquer. Não, não é nada disso, penso muitas vezes em me reformar do que sinto, do que penso da vida e do mundo. E até de mim, de quem no fundo é de quem estou mais cansado. Reformar-me de ser ou de tentar, em vão, ser.
Quem não tem tentações? E eu, como alguém disse, até costumo resistir a tudo, menos à tentação o que acho uma inconfessável fraqueza.
Esta vida é um emprego que apesar de tudo tenho mantido desde sempre, e de há tanto tempo que já não lhe sei a idade, e onde nem sempre tenho ganho coisa que se visse e desse para o meu suetento de uma forma compensadora. Nem todos os negócios em que me meti correram bem, começando por um, primordial, que foi o de ter nascido, pois ninguém me perguntou nada nem me informou de coisa nenhuma. Assinei de cruz, podera, ainda nem sequer sabia ler nem escrever, e numa folha em branco que a vida depois foi preenchendo.
Inexperiente como era naquele momento, naquele instante que ainda dura, dizem-me que assinei declarações de compromisso, certidões, fiz pedidos de alvarás e até votei a favor de leis e decretos lei, sobre a vida e o viver, eu, que ainda hoje nem sei que idade tenho nem sequer como me chamo.
É, estou tentado a abandonar tudo, mas a questão é absurda: não tenho nada que possa abandonar, donde possa sair, uma porta para bater. Nada! Até agora penso que só me resta fazer uma coisa : assinar a minha certidão de óbito, com o respectivo testamento a acompanhar, - embora não saiba a quem deixar alguma coisa nem que coisa possa ser - o que também não será assim tão fácil, porque primeiro tenho que ir aprender a escrever.
Um imbróglio de todo o tamanho e em não sei quantos actos, esta tentação, a que de facto também não sei como lhe resistir. Se me está a ser difícil viver ainda sinto que estou a ter mais dificuldades em morrer.
Resta-me tentar meter uns empenhos para ser apresentado às três Parcas, as que fiam a trama da vida, se bem que Cloto já me ajudou a nascer e segurou na roca, Láquesis lá me tem feito girar o fuso, e só me falta, no fundo, ter uma conversa de pé de orelha com Átropos para ver se me corta o fio da vida
domingo, 18 de novembro de 2012
Biblioteca
Olho para a minha biblioteca cheia de livros desarrumados, e sinto-me a viajar por mil países, envolvido em mil aventuras e intrigas, por dentro de mil pessoas e de mil formas de ser e de estar. Olho para a minha biblioteca e vejo centenas de cérebros a pensar, e em mim próprio começam a escrever-se equações, a fazerem-se derivações, a construirem-se conjuntos. A juntarem-se letras e a surgirem palavras que vão formando frases ao longo de páginas e páginas, de volumes e volumes.
E ponho-me a escolher um a um, os livros por que me sinto subitamente atraído e incapaz de me separar deles. Amontou-os a esmo, sem lhes ler as lombadas para não ter por quem chorar e depois meto-os dentro de um saco, como se fosse um alforge onde metesse o sustento para mais uma grande viagem das muitas que passo a vida a fazer, à roda dos meus mundos sempre por descobrir, sempre a procurar sem procurar como os três príncipes persas em Serendipo.
Pego numa arma e encho os bolsos de munições. Costumo levar sempre, por precaução, - aprendi com a vida -, com que me defender dos amigos, e levo também um par de botas para poder trocar quando as que tenho se escancararem de cansaço.
Foi-me dado um caminho para percorrer, uma espécie de segmento de vida que um dia os deuses entenderam dar-me para viver. Um segmento de história que um dia os deuses me pediram para escrever. Um segmento de dor que desde sempre soube ter que sofrer.
Despeço-me da minha biblioteca como quem se despede da vida, como quem se despede de um amor que tem que aceitar ser impossível.
E tenho uma última conversa com eles, em que sem lhes dizer nada, lhes falo da falta que me vão fazer e do testamento trágico que ficará guardado num subescrito onde terei o cuidado de deixar a minha última carta. Em branco.
Tragígrafo de mim invento-me numa vida que me inventaram de propósito para que eu a pudesse inventar. Viver sempre também cansa!
E ponho-me a escolher um a um, os livros por que me sinto subitamente atraído e incapaz de me separar deles. Amontou-os a esmo, sem lhes ler as lombadas para não ter por quem chorar e depois meto-os dentro de um saco, como se fosse um alforge onde metesse o sustento para mais uma grande viagem das muitas que passo a vida a fazer, à roda dos meus mundos sempre por descobrir, sempre a procurar sem procurar como os três príncipes persas em Serendipo.
Pego numa arma e encho os bolsos de munições. Costumo levar sempre, por precaução, - aprendi com a vida -, com que me defender dos amigos, e levo também um par de botas para poder trocar quando as que tenho se escancararem de cansaço.
Foi-me dado um caminho para percorrer, uma espécie de segmento de vida que um dia os deuses entenderam dar-me para viver. Um segmento de história que um dia os deuses me pediram para escrever. Um segmento de dor que desde sempre soube ter que sofrer.
Despeço-me da minha biblioteca como quem se despede da vida, como quem se despede de um amor que tem que aceitar ser impossível.
E tenho uma última conversa com eles, em que sem lhes dizer nada, lhes falo da falta que me vão fazer e do testamento trágico que ficará guardado num subescrito onde terei o cuidado de deixar a minha última carta. Em branco.
Tragígrafo de mim invento-me numa vida que me inventaram de propósito para que eu a pudesse inventar. Viver sempre também cansa!
Fui ter com o mar
Fui ter com o mar, aliás com quem sempre me dei bem, mesmo ainda antes de ter nascido. Conhecemo-nos desde que houve aquele feliz encontro, à esquina do dentro que me gerou, e começamos a ser inseparáveis um do outro, ao ponto, de eu pensar muitas vezes que foi a partir daí que comecei a ter obsessões, paixões desenfreadas, prazeres inconfessáveis, de me deixar ficar assim, aninhado a quem me dava tudo, e por quem eu me dava todo.
E fui crescendo, primeiro durante aqueles primeiros meses de intensa e dependente paixão. Depois nasci, já mais crescido e mais liberto desse pathos que acaba sempre por ser philia e depois eros e só por fim agapê.
Isto para te contar que este meu amor tão antigo como eu, continua a ser o sal que as minhas lágrimas choram quando de alegria te beijam o amor, meu amor. Porque tu és o mar da minha inconsciente consciência, com quem converso horas a fio, e ponho em verso, o mar e a cor dos teus olhos onde um dia mergulhei numa busca inacabada pela Atlântida dos nossos sentires.
Sabes meu amor, dizem que uma triangulação amorosa é impossível, mas repara como se enganam, e como nós somos diferentes a viver esta geometria a três. Quanto muito não se lhe poderá chamar euclidiana, mas de Hilbert ou de Riemann, meus amigos de infância, só porque já sonhava com eles sem saber, e sem saber sequer absolutamente nada de geometria.
Mas meu amor, neste nosso amor a três, passamos bem sem qualquer deles, porque no fundo continuam a basear-se nos 21 axiomas, e se pegarmos em 21, e somarmos, como tenho a mania, 2+1 temos o três. Não é que nós saibamos muito, eles, esses quase todos que vivem à nossa volta, é que sabem pouco, muito pouco meu amor. E como disse depois Bessel "enquanto o número é produto exclusivo do nosso espírito, o espaço tem uma realidade para além do espírito, cujas leis não podemos prescrever completamente".
Uma coisa não sabem de todo em todo, porque nunca lhes disse nem penso alguma vez dizer: os teus olhos, meu amor são esse mar onde nasci e onde tu nos continuas a alimentar, amnioticamente ou não, até morrermos. Sim, meu amor, até morrermos, porque sem ti, sou quanto muito um mar morto, onde ninguém consegue sobreviver.
Nem eu.
E fui crescendo, primeiro durante aqueles primeiros meses de intensa e dependente paixão. Depois nasci, já mais crescido e mais liberto desse pathos que acaba sempre por ser philia e depois eros e só por fim agapê.
Isto para te contar que este meu amor tão antigo como eu, continua a ser o sal que as minhas lágrimas choram quando de alegria te beijam o amor, meu amor. Porque tu és o mar da minha inconsciente consciência, com quem converso horas a fio, e ponho em verso, o mar e a cor dos teus olhos onde um dia mergulhei numa busca inacabada pela Atlântida dos nossos sentires.
Sabes meu amor, dizem que uma triangulação amorosa é impossível, mas repara como se enganam, e como nós somos diferentes a viver esta geometria a três. Quanto muito não se lhe poderá chamar euclidiana, mas de Hilbert ou de Riemann, meus amigos de infância, só porque já sonhava com eles sem saber, e sem saber sequer absolutamente nada de geometria.
Mas meu amor, neste nosso amor a três, passamos bem sem qualquer deles, porque no fundo continuam a basear-se nos 21 axiomas, e se pegarmos em 21, e somarmos, como tenho a mania, 2+1 temos o três. Não é que nós saibamos muito, eles, esses quase todos que vivem à nossa volta, é que sabem pouco, muito pouco meu amor. E como disse depois Bessel "enquanto o número é produto exclusivo do nosso espírito, o espaço tem uma realidade para além do espírito, cujas leis não podemos prescrever completamente".
Uma coisa não sabem de todo em todo, porque nunca lhes disse nem penso alguma vez dizer: os teus olhos, meu amor são esse mar onde nasci e onde tu nos continuas a alimentar, amnioticamente ou não, até morrermos. Sim, meu amor, até morrermos, porque sem ti, sou quanto muito um mar morto, onde ninguém consegue sobreviver.
Nem eu.
sábado, 17 de novembro de 2012
Quando
Quando me ponho a decorrer-me através dos meus afectos, às vezes tenho a tentação de despoletar a minha granada interior, que aliás trago sempre já sem cavilha.
A minha vida é feita de curvas e contra curvas interiores, sinuosas, pedregosas, de trilhos a beirarem precipícios profundíssimos, ou de becos sem saída, de ruelas entre ruínas esquecidas, de terrenos baldios, estéreis e abandonados a todos os lixos da vida, a todas as ervas daninhas que crescem a esmo e são pasto de cogumelos venenosos.
Apenas sinto a cavilha na minha mão, à espera que a liberte para que no estampido destruidor possa ouvir o teu grito feito do medo de te perder. E é nesse grito que eu sou tu, e é nesse grito que somos, meu amor, a imagem perfeita da história do rei vai nu, não por ambicionarmos roupagens nunca vistas, mas para que só as pessoas inteligentes nos vissem amorosamente passar, na nossa nudez interior.
A minha vida é feita de curvas e contra curvas interiores, sinuosas, pedregosas, de trilhos a beirarem precipícios profundíssimos, ou de becos sem saída, de ruelas entre ruínas esquecidas, de terrenos baldios, estéreis e abandonados a todos os lixos da vida, a todas as ervas daninhas que crescem a esmo e são pasto de cogumelos venenosos.
Apenas sinto a cavilha na minha mão, à espera que a liberte para que no estampido destruidor possa ouvir o teu grito feito do medo de te perder. E é nesse grito que eu sou tu, e é nesse grito que somos, meu amor, a imagem perfeita da história do rei vai nu, não por ambicionarmos roupagens nunca vistas, mas para que só as pessoas inteligentes nos vissem amorosamente passar, na nossa nudez interior.
Oiço . . .
Oiço músicas quando pinto e há mesmo um cheiro interior a tintas a pairar quando me mastigo os sonhos, e enquanto os saboreio depois, sem pressas.
E para me fazer de muitos eus, vou-me pintando de várias cores, de muitas cores, e sou um camaleão de mim mesmo, sempre a misturar-me com a vida sem que ela dê por isso.
E as músicas que oiço vão-me dizendo por onde ir, em colcheias e semi-colcheias, em semínimas aleatórias com que vou pintando uma ode à poesia, que no entanto não canto como antigamente se fazia, porque nunca me deixaram entrar no Odeão de Atenas receando que eu fosse capaz de fazer música ora dedilhando o bistel, ora a canelura, das colunas de que me faço, para depois ouvir, os meus pensamentos.
E para me fazer de muitos eus, vou-me pintando de várias cores, de muitas cores, e sou um camaleão de mim mesmo, sempre a misturar-me com a vida sem que ela dê por isso.
E as músicas que oiço vão-me dizendo por onde ir, em colcheias e semi-colcheias, em semínimas aleatórias com que vou pintando uma ode à poesia, que no entanto não canto como antigamente se fazia, porque nunca me deixaram entrar no Odeão de Atenas receando que eu fosse capaz de fazer música ora dedilhando o bistel, ora a canelura, das colunas de que me faço, para depois ouvir, os meus pensamentos.
Não reservo
Não reservo só para mim aquilo que penso e sinto. Partilho tudo com a maior abertura, liberto de quaisquer medos ou preconceitos. Sei que chego a ser indiscreto, sobretudo quando olho e fixo o meu olhar em tudo o que sinto emanar do que me parece ser belo.
Dizem-me às vezes que devia ser mais prudente, o não vás por aí. Mas não está em mim ser prudente, penso que nem sei muito bem o que isso é. Nunca soube, mesmo quando em África corri riscos de me encontrar frente a frente com a morte.
Sou curioso, em tudo, e até nisso : como será ela, a morte? A cara será mesmo só uma caveira descarnada? E debaixo do braço, andará sempre com aquela segadoira, assim como que arrimada a um bordão para se fazer à estrada da morte? Para mim, a morte é um poeta, e a segadoira a que se arrima, é uma forma de pôr em rima o desencontro constante entre a vida e a morte.
Não, quando amo não escondo que amo, nem porque amo ou o que quero amar. E se há coisa de que posso sentir orgulho é essa: amar só porque amo, e porque é feito de amor esse meu gesto de amar. De te amar, amor.
O meu exército está no activo e não na reserva.
Dizem-me às vezes que devia ser mais prudente, o não vás por aí. Mas não está em mim ser prudente, penso que nem sei muito bem o que isso é. Nunca soube, mesmo quando em África corri riscos de me encontrar frente a frente com a morte.
Sou curioso, em tudo, e até nisso : como será ela, a morte? A cara será mesmo só uma caveira descarnada? E debaixo do braço, andará sempre com aquela segadoira, assim como que arrimada a um bordão para se fazer à estrada da morte? Para mim, a morte é um poeta, e a segadoira a que se arrima, é uma forma de pôr em rima o desencontro constante entre a vida e a morte.
Não, quando amo não escondo que amo, nem porque amo ou o que quero amar. E se há coisa de que posso sentir orgulho é essa: amar só porque amo, e porque é feito de amor esse meu gesto de amar. De te amar, amor.
O meu exército está no activo e não na reserva.
Sou afectivo
Sou afectivo por natureza, de nascença, como também se diz. Tenho e sinto pelos outros um amor forte, autêntico, e quando sou amigo de alguém, esse alguém pode ter a certeza de que nunca está sozinho. E com a vida, ou com a idade, sinto que não tenho qualquer pudor em expressar esse afecto, até porque, e digo isto muitas vezes, tenho para mim que a amizade é a mais pura forma de amor, já que não vive da necessidade, mas assenta na interioridade da vivência amorosa.
E dou graças a Deus, por sempre me ter dado amigos a quem amo, a quem posso amar e por quem me sinto amado, com a intensidade de tudo o que é puro e se purifica por, e nessa mesma intensidade.
Às vezes posso não ser compreendido, o que nem sequer me espanta nada, porque o amor é raro e não se compreende: vive-se e sente-se no abraço que é corpaço, porque é amplexo de sentires e que só a verdadeira amizade permite. E como dizia Albert Camus "porque será preciso amar raramente, para amar muito?" Sim, amar mesmo, é raro, meu amigo.
E digo-te isto agora, porque como já to disse tantas vezes, é como se fosse sempre a primeira vez que to digo. É um prazer que sinto, este de me convencer e ficar satisfeito comigo mesmo, por, e por fim to conseguir dizer, meu amigo.
E dou graças a Deus, por sempre me ter dado amigos a quem amo, a quem posso amar e por quem me sinto amado, com a intensidade de tudo o que é puro e se purifica por, e nessa mesma intensidade.
Às vezes posso não ser compreendido, o que nem sequer me espanta nada, porque o amor é raro e não se compreende: vive-se e sente-se no abraço que é corpaço, porque é amplexo de sentires e que só a verdadeira amizade permite. E como dizia Albert Camus "porque será preciso amar raramente, para amar muito?" Sim, amar mesmo, é raro, meu amigo.
E digo-te isto agora, porque como já to disse tantas vezes, é como se fosse sempre a primeira vez que to digo. É um prazer que sinto, este de me convencer e ficar satisfeito comigo mesmo, por, e por fim to conseguir dizer, meu amigo.
Fui comprando
Fui comprando estas memórias, as minhas, ou se quiseres as que fui encontrando dentro de mim, aqui e ali, nas ruelas apinhadas de gente, ou nos ermos por onde me alongo quando dou passeios ausente de mim.
Também às vezes dou comigo a percorrer azinhagas antigas, dos arredores de mim, entre muros só de pedra arrumada ou toscamente argamassados, em becos sem saída ou nas mais apertadas praças de não sei onde em que de ver tanta gente, não consigo ver ninguém.
Troquei muitas vezes o passo, tropecei, cai e magoei-me nesse me ser andarilho pelos tempos que só eu sentia, mas não chegava a viver, porque há muito que tinham deixado de ser meus, nem mesmo das memórias em que me fui perdendo e de que já me esqueci, perdido nos recantos deste meu peito enrugado pelo tempo embora sempre "franjado de infinito".
E ainda hoje não sei se fui comprando ou se me fui comprando.
Também às vezes dou comigo a percorrer azinhagas antigas, dos arredores de mim, entre muros só de pedra arrumada ou toscamente argamassados, em becos sem saída ou nas mais apertadas praças de não sei onde em que de ver tanta gente, não consigo ver ninguém.
Troquei muitas vezes o passo, tropecei, cai e magoei-me nesse me ser andarilho pelos tempos que só eu sentia, mas não chegava a viver, porque há muito que tinham deixado de ser meus, nem mesmo das memórias em que me fui perdendo e de que já me esqueci, perdido nos recantos deste meu peito enrugado pelo tempo embora sempre "franjado de infinito".
E ainda hoje não sei se fui comprando ou se me fui comprando.
Existo
Existo, porque para mim, o alimento fundamental da existência, é mesmo esse sentir que existo.
E este existir não tem que ter corpo nem forma, porque o existir, o ec-xistir, é o saber que posso conter em mim mesmo (porque em si mesmo) a possibilidade existencial de auto-transcendência, de me auto-transcender.
E é assim que existo, numa espécie gerúndica de me ser, na medida em que me vou transcendendo.
Utopia? não sei, nem tenho, na verdade, nenhuma resposta para dar a ninguém, senão a que vou dando sempre a mim mesmo, porque também acredito que só cresço e progrido, à medida que vou concretizando utopias umas atrás das outras. E isto também nem sequer é uma resposta: é um sentimento, um sentimento de mim.
Afinal só existo na utopia, porque é sempre nesse não-lugar que acabo por me encontrar e sentir que existo.
E este existir não tem que ter corpo nem forma, porque o existir, o ec-xistir, é o saber que posso conter em mim mesmo (porque em si mesmo) a possibilidade existencial de auto-transcendência, de me auto-transcender.
E é assim que existo, numa espécie gerúndica de me ser, na medida em que me vou transcendendo.
Utopia? não sei, nem tenho, na verdade, nenhuma resposta para dar a ninguém, senão a que vou dando sempre a mim mesmo, porque também acredito que só cresço e progrido, à medida que vou concretizando utopias umas atrás das outras. E isto também nem sequer é uma resposta: é um sentimento, um sentimento de mim.
Afinal só existo na utopia, porque é sempre nesse não-lugar que acabo por me encontrar e sentir que existo.
sábado, 22 de setembro de 2012
O meu Pai
O meu Pai ofereceu-me "As Canções" de António Botto quando eu fiz 11 ou 12 anos, já não me lembro muito bem. Além de toda a poesia que ainda hoje, muitas vezes, volto a ler, pois tenho para mim que continua a ser do que de melhor se tem escrito em Portugal - não é por acaso que o grande Fernando Pessoa, se lhe refere numa carta como "meu mestre" - há uma parte em prosa a que ele chamou "Cartas que me foram devolvidas", que são de uma rara beleza enquanto testemunhos de uma humanidade, da humanidade, torturada pelas paixões que não são compreendidas nem aceites.
Também estes meus pequenos textos/apontamentos, quase numa forma tradicionalmente dita como diarística, são afinal cartas de um longa e nunca acabada carta que não me canso de escrever enquanto me sentir vivo, uma carta que escrevo e reescrevo, e a mim mesmo envio e a mim mesmo devolvo sempre.
No fundo são pequenos gritos calados, envoltos num silêncio que só eu oiço, e são a minha maneira de me revoltar contra a ignorância teimosa das pessoas que continuam a não ser capazes de dizer o que pensam e o que sentem, nem o que na realidade são.
Pobres palhaços, sempre com as caras enfarinhadas para se poderem esconder por trás dessa máscara que tanto e tantas vezes faz rir os outros, enquanto não conseguem esconder as lágrimas que numa rebeldia tão da natureza humana, lhes escorrem secas pelas caras abaixo e que ninguém pode ver.
Estas cartas feitas de muitas cartas, na verdade, só não me são devolvidas, porque sou eu que a mim mesmo as devove antes, muito antes de as enviar.
E não digo a ninguém que as escrevo. Eles que me olhem e adivinhem pela forma como os olho. Como os sinto "ridículos fantoches articulados" como lhes chamou António Botto, nesse lindíssimo poema que um dia escreveu, "Homem que vens de humanas desventuras".
Também estes meus pequenos textos/apontamentos, quase numa forma tradicionalmente dita como diarística, são afinal cartas de um longa e nunca acabada carta que não me canso de escrever enquanto me sentir vivo, uma carta que escrevo e reescrevo, e a mim mesmo envio e a mim mesmo devolvo sempre.
No fundo são pequenos gritos calados, envoltos num silêncio que só eu oiço, e são a minha maneira de me revoltar contra a ignorância teimosa das pessoas que continuam a não ser capazes de dizer o que pensam e o que sentem, nem o que na realidade são.
Pobres palhaços, sempre com as caras enfarinhadas para se poderem esconder por trás dessa máscara que tanto e tantas vezes faz rir os outros, enquanto não conseguem esconder as lágrimas que numa rebeldia tão da natureza humana, lhes escorrem secas pelas caras abaixo e que ninguém pode ver.
Estas cartas feitas de muitas cartas, na verdade, só não me são devolvidas, porque sou eu que a mim mesmo as devove antes, muito antes de as enviar.
E não digo a ninguém que as escrevo. Eles que me olhem e adivinhem pela forma como os olho. Como os sinto "ridículos fantoches articulados" como lhes chamou António Botto, nesse lindíssimo poema que um dia escreveu, "Homem que vens de humanas desventuras".
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